Guia de Mecânica · Camada transversal · serve aos 4 módulos

Complementos de álgebra linear

A Lista 2 inteira é um único teorema de álgebra linear aplicado quatro vezes. Esta página reconstrói esse teorema com você, da definição de matriz até o eixo helicoidal — e você vai deduzir quase tudo antes de eu contar.

§A0

O que esta página é, e como ela se encaixa

Os módulos do guia são verticais: cada um resolve uma série da lista. Esta página é horizontal — ela é a maquinaria que os quatro módulos usam por baixo. Sempre que um módulo disser "isso é álgebra linear, veja o complemento", o link cai aqui, na seção exata.

§A · ferramentas

Os sete conceitos que bastam

Coluna, produto escalar, transposta, determinante, núcleo, autovetor, base. Curto e sem enfeite — é só o que vai ser usado depois.

§B · rotações

A máquina única

De "o corpo é rígido" até \(\vec\omega\), passando por \(SO(3)\), antissimetria e a exponencial. É o coração da página.

§C · as 4 séries

A mesma máquina, quatro roupas

Frenet, corpo rígido, CIR, Coriolis. Cada uma sai em poucas linhas da §B — nenhuma fórmula nova.

§D · kit

Contas do dia a dia

Projeções, determinantes, mudança de base e quando um mecanismo trava. O que você usa resolvendo exercício.

§A0.1O método: você deduz, eu confirmo

Quase toda seção tem uma caixa roxa RECONSTRUA com um código (R1, R2, …). Ela pede algo antes de eu explicar. A ordem importa: se você ler a resposta primeiro, vai aprender a reconhecer o argumento; se tentar primeiro, vai aprender a produzir o argumento. Só o segundo sobrevive à prova.

As caixas "Confira depois de tentar" escondem a resolução. Elas são curtas de propósito — se a sua tentativa chegou perto, você não precisa de mais que isso; se não chegou, me chame pelo código do R e a gente destrincha.

Pré-requisitos honestos

Você precisa saber: somar vetores, multiplicar matriz por vetor, e derivar. Só isso. Determinante, núcleo e autovetor vão ser reconstruídos aqui do jeito que a Mecânica usa — que muitas vezes não é o jeito que o curso de Álgebra Linear apresenta primeiro.

A tese que esta página defende

Não existem quatro assuntos na Lista 2. Existe um: um conjunto de vetores que preserva comprimentos e ângulos só pode girar, e o "girar" tem um gerador, que é uma matriz antissimétrica, que em três dimensões — e só em três — pode ser escrita como um produto vetorial. Todo o resto é essa frase com sotaque diferente.

§A

Ferramentas: sete conceitos, do jeito que a Mecânica usa

breve por projeto

Esta parte é deliberadamente rápida. O objetivo não é cobrir Álgebra Linear — é trocar a definição de curso de cada conceito pela imagem operacional que a Mecânica vai exigir. Se você já domina algum item, pule; os códigos ficam aqui para eu referenciar depois.

§A1Vetor é o fato; componentes são o relato

Uma força existe. Ela empurra numa direção, com uma intensidade, independentemente de você ter escolhido eixos. Quando você escreve \(\vec F = (3, -1, 5)\), você não descreveu a força: você descreveu a força mais a sua escolha de base. Troque a base e os três números mudam, embora nada no mundo tenha mudado.

Isso parece filosofia até a primeira prova em que você mistura componentes escritas em bases diferentes e o resultado dá errado sem nenhum erro de conta. Guarde a regra:

Regra de higiene

Você nunca soma, subtrai ou compara componentes de bases diferentes. \(\dot\theta\,\hat\imath\) e \((0,0,\dot\theta)\) podem ser o mesmo vetor ou vetores completamente diferentes — depende de quem é \(\hat\imath\). Anote sempre em qual base as componentes estão escritas. Metade dos erros da Série 4 é isso.

O lado bom: se uma equação entre vetores é verdadeira (tipo \(\vec v = \vec\omega \wedge \vec r\)), ela é verdadeira em qualquer base — você pode escolher a base que deixa a conta mais fácil. Essa liberdade é a arma mais subutilizada em exercício de Mecânica.

§A2Matriz é o destino dos versores

Uma transformação linear \(L\) é uma função de vetores em vetores que respeita duas coisas: \(L(\vec u + \vec v) = L\vec u + L\vec v\) e \(L(k\vec u) = k\,L\vec u\). Essas duas exigências têm uma consequência forte: se você sabe o que \(L\) faz com os versores da base, você sabe tudo. Porque qualquer vetor é \(\vec u = u_1\hat\imath + u_2\hat\jmath + u_3\hat k\), e então

$$L\vec u = u_1\,L\hat\imath + u_2\,L\hat\jmath + u_3\,L\hat k$$

Ou seja: a transformação inteira cabe em três vetores — as imagens dos três versores. Empilhe esses três vetores em colunas e você tem a matriz.

Reconstrua · R1

Pegue \(A=\begin{pmatrix}2&0\\1&3\end{pmatrix}\). Sem usar nenhuma regra decorada de multiplicação: para onde \(A\) manda \(\hat\imath=(1,0)\)? E \(\hat\jmath=(0,1)\)? Agora, usando só isso e a linearidade, calcule \(A(4,5)\).

Confira depois de tentar

\(A\hat\imath = (2,1)\) — a primeira coluna. \(A\hat\jmath = (0,3)\) — a segunda. Então \(A(4,5) = 4(2,1) + 5(0,3) = (8, 4) + (0,15) = (8,19)\).

Compare com a regra "linha vezes coluna": dá o mesmo. Mas a leitura por colunas é a única que continua fazendo sentido quando a matriz tem significado físico. Daqui para a frente, matriz = caixa de vetores-destino.

Duas consequências que vamos usar muito:

  • Multiplicar matriz por vetor é combinar as colunas com os pesos dados pelo vetor. A imagem correta não é "varrer linhas", é "misturar colunas".
  • Multiplicar matriz por matriz é compor: \(AB\) significa "faça \(B\) primeiro, depois \(A\)". Por isso a ordem importa — vestir meia e sapato não comuta.

E um fato pequeno que vale ouro na Mecânica: se \(A\) é constante no tempo e \(\vec u(t)\) varia, então

$$\frac{d}{dt}\big(A\vec u\big) = A\,\dot{\vec u}$$

porque derivar é um limite de combinações lineares, e \(A\) já respeita combinações lineares. Derivada e transformação linear constante comutam. (Quando \(A\) não é constante — que é o caso interessante deste guia inteiro — aparece o termo extra \(\dot A\vec u\), e ele é o protagonista de tudo.)

§A3Produto escalar é o único instrumento de medida

Comprimento e ângulo não vêm de graça com "vetor". Eles vêm de uma estrutura extra, o produto escalar:

$$\vec u \cdot \vec v = u_1v_1 + u_2v_2 + u_3v_3 = |\vec u||\vec v|\cos\alpha$$

As duas expressões são a mesma coisa, mas contam histórias diferentes. A da direita diz o que ele significa: quanto de \(\vec u\) aponta na direção de \(\vec v\), vezes o tamanho de \(\vec v\). A da esquerda diz como calcular — e só vale em base ortonormal, detalhe que costuma passar batido.

Tudo que a gente vai chamar de "rigidez" é uma afirmação sobre produtos escalares:

Frase geométricaFrase em produto escalar
\(\vec u\) tem comprimento 1\(\vec u\cdot\vec u = 1\)
\(\vec u\) e \(\vec v\) são perpendiculares\(\vec u\cdot\vec v = 0\)
o ângulo entre \(\vec u\) e \(\vec v\) não muda no tempo\(\dfrac{d}{dt}(\vec u\cdot\vec v) = 0\)
a distância entre dois pontos não muda\(\dfrac{d}{dt}\big[(\vec r_B-\vec r_A)\cdot(\vec r_B-\vec r_A)\big]=0\)

E o produto escalar obedece à regra do produto igual a funções escalares:

$$\frac{d}{dt}(\vec u\cdot\vec v) = \dot{\vec u}\cdot\vec v + \vec u\cdot\dot{\vec v}$$

Isso não é coincidência nem convenção — é porque \(\vec u\cdot\vec v\) é uma soma de produtos de funções, e cada produto obedece à regra do produto. Essa linha é o motor de toda a página. Quase todo teorema daqui em diante é "escreva a rigidez como produto escalar constante, derive, leia o resultado".

§A4A transposta: trocar de lado dentro do produto escalar

"Transposta é espelhar a matriz na diagonal" é uma receita, não um significado. O significado é este: \(A^{\mathsf T}\) é a única matriz que satisfaz

$$(A\vec u)\cdot\vec v = \vec u\cdot(A^{\mathsf T}\vec v)\qquad\text{para todos } \vec u,\vec v$$
Reconstrua · R2

Verifique a identidade acima escrevendo os somatórios. Dica: \((A\vec u)_i = \sum_j a_{ij}u_j\); escreva \((A\vec u)\cdot\vec v = \sum_i\sum_j a_{ij}u_jv_i\) e depois reorganize para que \(u_j\) fique do lado de fora.

Confira depois de tentar $$(A\vec u)\cdot\vec v=\sum_i\Big(\sum_j a_{ij}u_j\Big)v_i=\sum_j u_j\Big(\sum_i a_{ij}v_i\Big)=\sum_j u_j\,(A^{\mathsf T}\vec v)_j=\vec u\cdot(A^{\mathsf T}\vec v)$$

O único passo foi trocar a ordem dos somatórios. O índice que era de linha virou de coluna — e é por isso que a receita "espelhe na diagonal" funciona. A receita é consequência; a identidade é a definição.

Com essa leitura, uma pergunta que parecia técnica fica física: quais matrizes preservam todos os produtos escalares? Queremos \((Q\vec u)\cdot(Q\vec v) = \vec u\cdot\vec v\). Pela identidade,

$$(Q\vec u)\cdot(Q\vec v) = \vec u\cdot(Q^{\mathsf T}Q\,\vec v)$$

e isso é igual a \(\vec u\cdot\vec v\) para todo par se e só se \(Q^{\mathsf T}Q = I\). Guarde: preservar comprimentos e ângulos \(\iff Q^{\mathsf T}Q = I\). Vamos usar isso na §B como ponto de partida, e vamos reencontrá-lo por um caminho totalmente diferente — pelas colunas — em §B1.

§A5Determinante é fator de volume (e "zero" quer dizer "achatou")

Esqueça a regra de Sarrus por um minuto. O determinante de \(A\) responde: se eu aplicar \(A\) num cubo de volume 1, qual o volume da caixa que sai? Com sinal: negativo quer dizer que a orientação inverteu (a mão direita virou mão esquerda).

Daí saem, sem decorar, os fatos que a gente usa:

  • \(\det(AB) = \det A\,\det B\) — fazer duas transformações multiplica os fatores de volume.
  • \(\det(A^{\mathsf T}) = \det A\) — o volume não sabe distinguir linhas de colunas.
  • \(\det(kA) = k^n\det A\) em dimensão \(n\) — esticar todas as \(n\) direções por \(k\) multiplica o volume por \(k^n\). Esse \(n\) no expoente vai decidir o destino do vetor \(\vec\omega\) na §B6.
  • \(\det A = 0\) \(\iff\) a caixa de saída é chata, tem volume zero \(\iff\) a transformação apagou pelo menos uma direção.

§A6Núcleo: o que a matriz apaga

O núcleo de \(A\) é o conjunto dos \(\vec x\) com \(A\vec x = \vec 0\). É a lista do que a transformação destrói. A conexão com o determinante é direta e é a única coisa que você precisa lembrar:

O par que vamos usar três vezes

\(\det A \neq 0\) \(\iff\) núcleo só tem o \(\vec 0\) \(\iff\) o sistema \(A\vec x = \vec b\) tem solução única.
\(\det A = 0\) \(\iff\) existe direção apagada \(\iff\) \(A\vec x = \vec b\) ou não tem solução, ou tem infinitas.

Em Mecânica isso vira: "existe um ponto com velocidade nula?" (o CIR, §C4), "existe um eixo de rotação?" (§B6), "esse mecanismo trava nessa posição?" (§D4). Todas as três são a mesma pergunta sobre determinante.

§A7Autovetores: as direções que a matriz não entorta

\(\vec x\) é autovetor se \(A\vec x = \lambda\vec x\): a matriz não muda a direção, só estica por \(\lambda\). Duas observações que vão importar:

  • Autovetor com \(\lambda = 0\) é exatamente um vetor do núcleo. "Direção apagada" e "autovalor zero" são a mesma coisa.
  • Se uma matriz real não tem autovetor real numa certa direção, é porque ela está girando ali — não existe direção preservada dentro de um giro. Os autovalores ficam complexos, do tipo \(\pm i\beta\), e esse par imaginário é a assinatura matemática de "aqui tem rotação". É o mesmo par que produz seno e cosseno quando você resolve uma EDO linear — e vamos ver esse encontro acontecer em §B7.

§A8Base ortonormal e mudança de base

Uma base é ortonormal quando os três versores têm módulo 1 e são mutuamente perpendiculares. Toda base que a Mecânica usa é assim — \((\hat\imath,\hat\jmath,\hat k)\), \((\hat t,\hat n,\hat b)\), \((\hat\imath,\vec\tau,\hat u)\) — e isso não é conveniência estética: é o que faz \(\vec u\cdot\vec v = u_1v_1+u_2v_2+u_3v_3\) valer, e o que faz "achar a componente" ser só um produto escalar: \(u_i = \vec u\cdot\hat e_i\).

Se \(Q\) tem uma base ortonormal nas colunas, então \(Q^{\mathsf T}Q = I\), o que significa \(Q^{-1} = Q^{\mathsf T}\): inverter é transpor. Esse é o superpoder da §B inteira — trocar de base para frente e para trás sem nunca calcular uma inversa.

Por fim, a fórmula que traduz uma transformação entre duas bases:

$$A_{\text{nova}} = Q^{\mathsf T}A_{\text{antiga}}\,Q$$

Leia como uma sanduíche de tradução: \(Q\) leva do idioma novo para o antigo, \(A\) faz o serviço no antigo, \(Q^{\mathsf T}\) traz o resultado de volta. É a mesma transformação, dita em outra língua. Vai reaparecer em §C5 e §D3.

W1 A caixa de vetores-destino

Arraste as pontas das duas colunas. O quadrado cinza é o "antes"; o paralelogramo colorido é o "depois". Olhe três coisas ao mesmo tempo: a área (que é o determinante), a tabela \(Q^{\mathsf T}Q\) de produtos escalares, e quando ela vira a identidade.

Q — colunas = destinos
QᵀQ — tabela de produtos escalares
det Q (área)
1.000
|col 1|
1.000
|col 2|
1.000
status
rígida
col 1 = destino de î col 2 = destino de ĵ quadrado unitário — o "antes"
Reconstrua · R3

No W1, coloque as duas colunas em cima uma da outra (paralelas). Olhe o determinante. Agora responda sem calcular: existe algum vetor não nulo que essa matriz manda para a origem? Consegue apontar qual, na tela?

Confira depois de tentar

Sim. Se as colunas são paralelas, digamos \(\vec c_2 = k\,\vec c_1\), então o vetor \(\vec x = (k,-1)\) é apagado: \(A\vec x = k\vec c_1 - \vec c_2 = \vec 0\). O paralelogramo virou um segmento — área zero, uma direção inteira esmagada.

Você acabou de ligar, na mão, colunas dependentes \(\to\) determinante zero \(\to\) núcleo não trivial. Esses três enunciados são o mesmo enunciado. Vamos precisar dele exatamente assim em §C4.

§B

A máquina: de "é rígido" até \(\vec\omega\)

o coração da página

Agora a construção de verdade. Vamos partir de uma frase que não tem nenhuma matemática — "esse conjunto de vetores é rígido" — e chegar, sem nenhum salto, na fórmula \(\dot{\vec u} = \vec\omega\wedge\vec u\). Sete passos. Cada um deles você consegue dar sozinho; eu só vou arrumar a poeira depois.

§B1Passo 1 — transformar "rígido" em equação

Considere um triedro ortonormal móvel \(\hat e_1(t), \hat e_2(t), \hat e_3(t)\) — pode ser o triedro de Frenet, a base cilíndrica, ou três direções gravadas num corpo rígido. Ponha as componentes deles (medidas numa base fixa) nas colunas de uma matriz \(Q(t)\).

\(Q(t)\) é uma fotografia da orientação no instante \(t\). E, pela leitura da §A2, \(Q\) é também a transformação que leva a base fixa na base móvel: \(Q\hat\imath = \hat e_1\), \(Q\hat\jmath = \hat e_2\), \(Q\hat k = \hat e_3\). Os dois papéis — "tabela de componentes" e "a rotação aplicada" — são o mesmo objeto.

Reconstrua · R4

Escreva a condição "os três versores têm módulo 1 e são mutuamente perpendiculares" como uma única equação matricial. Dica: lembre da §A4 que a entrada \((i,j)\) de \(Q^{\mathsf T}Q\) é o produto escalar da linha \(i\) de \(Q^{\mathsf T}\) com a coluna \(j\) de \(Q\) — e pergunte-se quem são essas duas coisas.

Confira depois de tentar

A linha \(i\) de \(Q^{\mathsf T}\) é o versor \(\hat e_i\) deitado; a coluna \(j\) de \(Q\) é \(\hat e_j\) em pé. Logo

$$(Q^{\mathsf T}Q)_{ij} = \hat e_i\cdot\hat e_j$$

\(Q^{\mathsf T}Q\) é a tabela de todos os produtos escalares do triedro. Exigir módulo 1 e perpendicularidade é exigir que essa tabela seja \(I\):

$$\boxed{\,Q^{\mathsf T}Q = I\,}$$
ê₁ ê₂ ê₃ triedro rígido QᵀQ ê₁·ê₁ê₁·ê₂ê₁·ê₃ ê₂·ê₁ê₂·ê₂ê₂·ê₃ ê₃·ê₁ê₃·ê₂ê₃·ê₃ 6 vínculos independentes diagonal = comprimentos 3 equações, valem 1 fora = ângulos 3 equações, valem 0
A rigidez inteira cabe numa tabela. Multiplicar \(Q^{\mathsf T}\) por \(Q\) calcula, de uma vez, os nove produtos escalares do triedro. A tabela é simétrica (\(\hat e_1\cdot\hat e_2\) e \(\hat e_2\cdot\hat e_1\) são o mesmo número), então das nove casas só 6 são vínculos independentes — e são exatamente os 6 fatos que definem "tripé rígido".

Repare que chegamos à mesma equação por dois caminhos independentes: pelas colunas (a tabela acima) e pelo produto escalar preservado (§A4). Não é coincidência — é a mesma afirmação vista de dentro e de fora. Matrizes com \(Q^{\mathsf T}Q = I\) se chamam ortogonais.

§B2Passo 2 — o movimento não pode virar a mão do avesso

Reconstrua · R5

De \(Q^{\mathsf T}Q = I\), tire o determinante dos dois lados e descubra quanto vale \(\det Q\). Depois pense: um corpo rígido que se move parte de \(Q(0) = I\) e muda continuamente. Isso restringe o valor?

Confira depois de tentar

\(\det(Q^{\mathsf T}Q) = \det(Q^{\mathsf T})\det(Q) = (\det Q)^2 = \det I = 1\), logo \(\det Q = \pm 1\).

Agora o argumento bonito: \(\det Q(t)\) é uma função contínua do tempo que só pode valer \(+1\) ou \(-1\). Uma função contínua não pula de \(+1\) para \(-1\) sem passar por zero — e zero é proibido. Como \(\det Q(0) = \det I = +1\), ela fica em \(+1\) para sempre.

Esse resultado tem tradução física imediata: você não consegue transformar uma mão direita numa mão esquerda mexendo o corpo continuamente. \(\det Q = -1\) corresponde a reflexões — espelhos, não movimentos. O conjunto que sobra,

$$SO(3) = \{\,Q : Q^{\mathsf T}Q = I,\ \det Q = +1\,\}$$

é o conjunto de todas as orientações fisicamente alcançáveis de um corpo rígido. O "S" é de special (o \(\det=+1\)), o "O" de orthogonal, o 3 da dimensão do espaço. Toda a Lista 2 acontece dentro desse conjunto.

§B3Passo 3 — quantos números descrevem uma orientação

Reconstrua · R6

Uma matriz \(3\times3\) tem 9 números. A condição \(Q^{\mathsf T}Q = I\) impõe quantas equações independentes? Quantos graus de liberdade sobram? E esse número bate com quantos números você usaria para descrever a orientação de um livro na sua mão?

Confira depois de tentar

9 números, menos 6 vínculos (3 de comprimento + 3 de ângulo, contados na figura do §B1) = 3 graus de liberdade.

E bate: três ângulos descrevem a orientação de qualquer objeto rígido (os ângulos de Euler, por exemplo). Uma orientação é um ponto num espaço de dimensão 3 — só que num espaço curvo, porque os 9 números vivem espremidos por 6 equações.

Vale a pena deixar essa imagem bem nítida, porque ela organiza tudo que vem depois:

A imagem-mestra

\(SO(3)\) é uma superfície curva de dimensão 3, morando dentro do espaço de 9 dimensões de todas as matrizes \(3\times3\). Um corpo rígido em movimento é um ponto viajando nessa superfície: \(Q(t)\) é uma curva, e \(\dot Q\) é o vetor tangente a ela.

A pergunta "como um corpo rígido pode se mexer?" vira então: quais são os vetores tangentes permitidos nessa superfície? É isso que o próximo passo responde — e a resposta é a antissimetria.

§B4Passo 4 — derivar o vínculo, e o que cai fora

Antes de derivar, dois lembretes mecânicos. Derivar uma matriz é derivar cada casinha. E a regra do produto vale, com a ordem preservada: \(\frac{d}{dt}(AB) = \dot AB + A\dot B\). Também vale \(\frac{d}{dt}(Q^{\mathsf T}) = (\dot Q)^{\mathsf T}\), já que transpor é só reetiquetar posições.

Reconstrua · R7

Derive \(Q^{\mathsf T}Q = I\) em relação ao tempo. Depois batize \(\Omega = Q^{\mathsf T}\dot Q\) e descubra que propriedade a equação obriga \(\Omega\) a ter. Dica: use \((AB)^{\mathsf T} = B^{\mathsf T}A^{\mathsf T}\) para reconhecer o outro termo.

Confira depois de tentar

O lado direito é constante, então a derivada é zero:

$$\dot Q^{\mathsf T}Q + Q^{\mathsf T}\dot Q = 0$$

E \((Q^{\mathsf T}\dot Q)^{\mathsf T} = \dot Q^{\mathsf T}Q\) — o primeiro termo é a transposta do segundo. Com \(\Omega = Q^{\mathsf T}\dot Q\):

$$\Omega^{\mathsf T} + \Omega = 0 \quad\Longrightarrow\quad \boxed{\;\Omega^{\mathsf T} = -\Omega\;}$$

\(\Omega\) é antissimétrica. Não foi hipótese, não foi escolha de notação: é consequência forçada da rigidez. E na diagonal, \(\Omega_{ii} = -\Omega_{ii}\) obriga \(\Omega_{ii} = 0\) de graça.

Agora a parte que transforma isso de álgebra em física: o que cada casinha de \(\Omega\) significa? A linha \(i\) de \(Q^{\mathsf T}\) é \(\hat e_i\); a coluna \(j\) de \(\dot Q\) é \(\dot{\hat e}_j\). Portanto

$$\Omega_{ij} = \hat e_i\cdot\dot{\hat e}_j$$

Em palavras: \(\Omega_{ij}\) é quanto o versor \(j\) está "vazando" na direção do versor \(i\). A coluna \(j\) de \(\Omega\) são as componentes de \(\dot{\hat e}_j\) escritas na própria base móvel. Não é um símbolo: é um dicionário.

Com isso, releia as 6 equações da figura do §B1 depois de derivadas:

VínculoDerivadoViraSignificado
\(\hat e_i\cdot\hat e_i = 1\)\(2\,\hat e_i\cdot\dot{\hat e}_i = 0\)\(\Omega_{ii} = 0\)a derivada de um versor é perpendicular a ele — é o Lema do §1.2 do Módulo 1, três vezes
\(\hat e_i\cdot\hat e_j = 0\)\(\dot{\hat e}_i\cdot\hat e_j + \hat e_i\cdot\dot{\hat e}_j = 0\)\(\Omega_{ji} = -\Omega_{ij}\)contabilidade de soma zero: o que um versor ganha na direção do outro, o outro perde na direção dele

Essa segunda linha é a intuição inteira da antissimetria, e ela é desenhável:

90° ê₁ ê₂ instante t ê₁′ ê₂′ instante t + dt ê₁ ganha componente + na direção de ê₂ ê₂ ganha componente − na direção de ê₁ soma zero ⟹ ângulo preservado
A antissimetria é uma contabilidade. Os dois versores giram o mesmo ângulo \(\alpha\), no mesmo sentido — é a única forma de o ângulo entre eles continuar reto. Medido como "vazamento", isso aparece com sinais opostos: \(\Omega_{21} = +\), \(\Omega_{12} = -\). A matriz antissimétrica é só essa frase escrita em coordenadas.
O que a antissimetria proíbe

Diagonal zerada proíbe esticar. Soma zero fora da diagonal proíbe abrir ou fechar ângulo. Um tripé que não pode esticar nem entortar tem exatamente uma coisa a fazer: girar em bloco. "Antissimétrica" é a forma matemática de "todo mundo junto".

§B5Passo 5 — toda matriz é uma deformação mais um giro

Este passo não é obrigatório para chegar em \(\vec\omega\), mas ele é o que faz a antissimetria deixar de ser uma curiosidade e virar a explicação. E ele dá um segundo caminho, independente do \(Q\), que serve direto para a Série 2.

Fato puramente algébrico: qualquer matriz quadrada se separa em duas, de um jeito só:

$$L = \underbrace{\tfrac12\big(L+L^{\mathsf T}\big)}_{D\ \text{(simétrica)}} \;+\; \underbrace{\tfrac12\big(L-L^{\mathsf T}\big)}_{W\ \text{(antissimétrica)}}$$

Confira: somando as duas parcelas dá \(L\); a primeira é igual à sua transposta, a segunda é menos a sua transposta. É a mesma ideia de escrever uma função como parte par mais parte ímpar.

Agora dê significado físico. Imagine um corpo qualquer — não necessariamente rígido — e um campo de velocidades. Perto de um ponto \(A\), qualquer campo suave se parece com

$$\vec v(P) \approx \vec v_A + L\,(P-A)$$

onde \(L\) é a matriz de derivadas do campo (o gradiente). Separando \(L = D + W\):

  • \(D\), a parte simétrica, é a taxa de deformação: ela estica, comprime e cisalha. Um círculo de material vira elipse.
  • \(W\), a parte antissimétrica, é o spin: ela roda o material sem mudar forma nenhuma.
Reconstrua · R8

Mostre que "o corpo é rígido" força \(D = 0\). Roteiro: pegue dois pontos \(P\) e \(Q\) do corpo, escreva \(\vec d = P - Q\), e imponha que \(|\vec d|^2\) seja constante. Derive e use \(\dot{\vec d} = L\vec d\). O que você obtém sobre a forma quadrática \(\vec d\cdot L\vec d\)?

Confira depois de tentar

\(\frac{d}{dt}(\vec d\cdot\vec d) = 2\,\vec d\cdot\dot{\vec d} = 2\,\vec d\cdot L\vec d = 0\) para toda separação \(\vec d\) possível dentro do corpo.

Agora note que \(\vec d\cdot W\vec d = 0\) automaticamente para qualquer antissimétrica (troque \(\vec d\) de lado com a §A4: \(\vec d\cdot W\vec d = W^{\mathsf T}\vec d\cdot \vec d= -\vec d\cdot W\vec d\), logo é zero). Então sobra \(\vec d\cdot D\vec d = 0\) para todo \(\vec d\).

E uma simétrica cuja forma quadrática se anula em todo vetor é a matriz nula: tome \(\vec d = \hat e_i\) e saem os \(D_{ii} = 0\); tome \(\vec d = \hat e_i + \hat e_j\) e sobra \(2D_{ij} = 0\). Logo \(D = 0\) e só a parte antissimétrica sobrevive.

A frase que fecha o §B5

Um campo de velocidades geral tem 9 números (o \(L\)). Rigidez mata os 6 da parte simétrica e deixa os 3 da antissimétrica. Os "3 graus de liberdade de rotação" do corpo rígido são literalmente as 3 casas livres de uma matriz antissimétrica. Somando as 3 da translação (\(\vec v_A\)), dá os 6 graus de liberdade de um corpo rígido que todo livro cita sem explicar de onde vêm.

W2 Deformar e girar, separados

O campo \(\vec v = L\vec x\) desenhado sobre um disco de material. Mexa na parte simétrica \(D\) (estica e cisalha) e na antissimétrica \(W\) (gira). Olhe a distância entre os dois pontos marcados: ela só fica congelada quando \(D\) é zero.

D — simétrica · deforma
W — antissimétrica · gira
d|AB| / dt
0.000
taxa de deformação
0.00
spin ω
0.00
movimento
deformável
velocidade de cada ponto par de pontos monitorado forma daqui a um instante

§B6Passo 6 — por que aparece um produto vetorial

Uma matriz antissimétrica \(3\times3\) tem a diagonal zerada e o triângulo de baixo determinado pelo de cima. Sobram 3 números livres. Batize-os \(\omega_1,\omega_2,\omega_3\) e arrume assim:

$$\Omega=\begin{pmatrix} 0 & -\omega_3 & \omega_2\\ \omega_3 & 0 & -\omega_1\\ -\omega_2 & \omega_1 & 0\end{pmatrix}$$
Reconstrua · R9

Multiplique essa matriz por um vetor genérico \(\vec u = (u_1,u_2,u_3)\), linha por linha, e olhe bem para as três componentes que saíram. Você já viu esses três números juntos antes. Onde?

Confira depois de tentar

Linha a linha: \((\,\omega_2u_3-\omega_3u_2,\;\; \omega_3u_1-\omega_1u_3,\;\; \omega_1u_2-\omega_2u_1\,)\). É exatamente o produto vetorial:

$$\boxed{\;\Omega\,\vec u = \vec\omega\wedge\vec u\;}$$

Combinando com o §B4 (\(\dot{\hat e}_j\) é a coluna \(j\) de \(\Omega\)): a derivada de qualquer versor do triedro é \(\vec\omega\wedge\hat e_j\). Esse é o teorema que gera a Lista 2 inteira, e você acabou de deduzi-lo.

Falta explicar por que os três números foram colocados naquelas casas. O critério é simples e vale a pena internalizar, porque é como você vai ler um \(\vec\omega\) de dentro de qualquer matriz:

númeroocupa as casaslogo mistura as direçõesou seja, gira no planoe por isso é a componente ao longo de
\(\omega_1\)(3,2) e (2,3)2 e 3\(\hat e_2\hat e_3\)\(\hat e_1\)
\(\omega_2\)(1,3) e (3,1)3 e 1\(\hat e_3\hat e_1\)\(\hat e_2\)
\(\omega_3\)(2,1) e (1,2)1 e 2\(\hat e_1\hat e_2\)\(\hat e_3\)

Cada número de \(\Omega\) é a velocidade de giro num plano, e o nome que damos a ele é o eixo perpendicular a esse plano. Essa tabela é a ferramenta prática mais útil desta página: com ela, você lê o \(\vec\omega\) de qualquer matriz antissimétrica em cinco segundos — inclusive da matriz de Frenet–Serret, em §C1.

Por que existe um eixo

Reconstrua · R10

Prove que toda matriz antissimétrica \(3\times3\) apaga alguma direção — sem usar a fórmula \(\Omega\vec u = \vec\omega\wedge\vec u\). Dica: calcule \(\det\Omega\) usando \(\det(A^{\mathsf T}) = \det A\), depois \(\Omega^{\mathsf T} = -\Omega\), e por fim \(\det(kA) = k^n\det A\) da §A5.

Confira depois de tentar $$\det\Omega = \det(\Omega^{\mathsf T}) = \det(-\Omega) = (-1)^3\det\Omega = -\det\Omega$$

Um número igual ao seu próprio negativo é zero: \(\det\Omega = 0\). Pela §A6, existe \(\vec x\neq\vec 0\) com \(\Omega\vec x = \vec 0\). Essa direção apagada é o eixo.

Olhe o passo decisivo: o expoente \(3\) em \((-1)^3\). Se a dimensão fosse par, \((-1)^n = +1\) e a conta não diria nada. O eixo de rotação existe porque 3 é ímpar.

E o eixo é único: o posto de uma matriz antissimétrica é sempre par (0 ou 2 em \(3\times3\)), então o núcleo tem dimensão 3 (nada gira) ou exatamente 1 — uma reta, nunca um plano. Quem é essa reta? Aplicando \(\Omega\) no próprio \(\vec\omega\): \(\vec\omega\wedge\vec\omega = \vec 0\). O eixo é o próprio \(\vec\omega\), como tinha que ser.

O que \(\Omega\) faz, em uma frase

Decomponha \(\vec u\) em componente ao longo de \(\vec\omega\) e componente no plano perpendicular. A primeira é aniquilada. Na segunda, \(\Omega\) age como \(|\vec\omega|\) vezes uma rotação de 90°. Teste com \(\vec\omega = \omega\hat k\): \(\Omega(1,0,0) = (0,\omega,0)\) — girou um quarto de volta e multiplicou por \(\omega\).

Derivar, sem mistério

"Derivar um vetor carregado por um corpo rígido" = apague a parte ao longo do eixo, gire o resto 90°, multiplique por \(|\vec\omega|\). Essa é a receita do produto vetorial. Ele não foi escolhido para a Mecânica: ele é o que uma matriz antissimétrica faz.

O objeto de verdade é o plano, não o eixo

Aqui vale trocar uma imagem por outra, melhor. Uma rotação instantânea não é "um eixo": é um plano onde as coisas giram, mais uma velocidade. Em \(\mathbb R^3\), todo plano tem uma única normal, então damos nome ao plano apontando para fora dele — e chamamos isso de \(\vec\omega\). É um apelido excelente, e é um privilégio da dimensão 3. Conte os planos independentes, que são os pares \(i

dimensão \(n\)planos independenteso que é "velocidade angular"tem eixo?
21um escalar — só \(\dot\theta\)não faz sentido (o eixo sairia do plano)
33um vetor \(\vec\omega\) — e \(n(n-1)/2 = n\) só aquisim, e é único
466 números — não cabe num vetor de \(\mathbb R^4\)não: uma rotação genérica gira em dois planos
W3 A matriz \(\Omega\) se preenchendo

Escolha um \(\vec\omega\) e veja o triedro girar. A tabela abaixo é calculada numericamente a partir do movimento desenhado — \(\Omega_{ij} = \hat e_i\cdot\dot{\hat e}_j\), por diferença finita. Ninguém impôs antissimetria: ela aparece.

Ω medida no movimento — Ωᵢⱼ = êᵢ · ê̇ⱼ
leitura do vetor
ω₁ = Ω₃₂
0.00
ω₂ = Ω₁₃
0.00
ω₃ = Ω₂₁
0.00
maior |Ωᵢᵢ|
0.000
maior |Ωᵢⱼ+Ωⱼᵢ|
0.000
|Ωu − ω∧u|
0.000
ê₁ ê₂ ê₃ ω e o plano de giro

§B7Passo 7 — da geradora de volta para a rotação: a exponencial

Até aqui fomos de \(Q\) para \(\Omega\) derivando. O caminho de volta é uma equação diferencial. De \(\Omega = Q^{\mathsf T}\dot Q\), multiplicando por \(Q\) à esquerda e usando \(QQ^{\mathsf T} = I\):

$$\dot Q = Q\,\Omega$$

Se \(\Omega\) é constante, isso é a versão matricial de \(\dot y = ay\). E a solução é a mesma, com a mesma série:

$$Q(t) = \exp(\Omega t) = I + \Omega t + \frac{(\Omega t)^2}{2!} + \frac{(\Omega t)^3}{3!} + \cdots$$
Reconstrua · R11

Escreva \(\Omega = \theta'\,K\), com \(K\) antissimétrica de eixo unitário. Calcule \(K^2\) e \(K^3\) para o caso simples \(K\) = giro no plano \(xy\) (eixo \(\hat k\)) e procure um padrão. O que acontece com a série infinita?

Confira depois de tentar

Com \(K = \begin{pmatrix}0&-1&0\\1&0&0\\0&0&0\end{pmatrix}\): \(K^2\) é menos a identidade no plano \(xy\) (e zero no eixo), e \(K^3 = -K\). Isso vale para qualquer eixo unitário.

Com \(K^3 = -K\), as potências só ciclam entre \(K\) e \(K^2\). Separe a série nos termos ímpares e pares e você reconhece seno e cosseno:

$$\exp(\theta K) = I + \sin\theta\,K + (1-\cos\theta)\,K^2$$

Isso é a fórmula de Rodrigues, e ela é uma rotação de ângulo \(\theta\) em torno do eixo de \(K\).

De onde vêm seno e cosseno

Dentro do plano de rotação, \(K^2 = -I\). Ou seja: \(K\) age exatamente como a unidade imaginária \(i\). E aí a série \(\exp(\theta K)\) é a mesma série de \(e^{i\theta} = \cos\theta + i\sin\theta\), vestida de matriz \(3\times3\). Seno e cosseno não foram introduzidos na rotação — eles são o que a exponencial faz quando o quadrado do gerador é \(-1\). O mesmo motivo pelo qual eles aparecem em oscilador harmônico e em circuito LC.

Vale registrar a hierarquia completa, porque ela organiza a intuição:

objetoo que éonde viveopera-se com
\(Q\)a orientação (posição angular)\(SO(3)\) — superfície curvamultiplicação (e não comuta)
\(\Omega\)a velocidade angular (o gerador)\(\mathfrak{so}(3)\) — espaço vetorial plano de dimensão 3soma (e comuta)
\(\vec\omega\)o mesmo \(\Omega\), com nome de vetor\(\mathbb R^3\)soma e produto vetorial
A armadilha que essa tabela resolve

Rotações finitas não somam (gire 90° em \(x\) depois 90° em \(y\), depois inverta a ordem: dá diferente). Velocidades angulares somam. Isso parece contraditório e não é: a composição acontece em \(SO(3)\), onde a operação é produto de matrizes; a soma acontece em \(\mathfrak{so}(3)\), que é um espaço vetorial comum. Derivar no instante inicial transforma produto em soma — é o mesmo fenômeno de \(e^{a}e^{b} = e^{a+b}\) para números. Vamos usar isso explicitamente em §C5.

§B8Rodapé: \(\vec\omega\) não é um vetor honesto

Uma última consequência de "o objeto real é o plano". Sob uma reflexão num espelho, um vetor de verdade (posição, velocidade, força) reflete do jeito esperado. O \(\vec\omega\), não: ele ganha um sinal a mais, porque quem reflete é o plano, e a normal herda a inversão de orientação. Formalmente, para \(R\) ortogonal, \((R\vec a)\wedge(R\vec b) = \det(R)\;R(\vec a\wedge\vec b)\) — e o \(\det(R)\) só some quando \(\det R = +1\).

Chamamos isso de pseudovetor (ou vetor axial). Na prática da Lista 2 isso quase nunca morde, porque todas as bases que a lista usa são dextrógiras. Mas explica uma coisa útil: sempre que um exercício manda usar "a regra da mão direita", ele está fixando uma convenção de orientação, não descrevendo um fato físico. Troque a convenção e todos os \(\vec\omega\) do problema mudam de sinal coerentemente — a física fica a mesma.

§C

As quatro séries, como quatro leituras da mesma matriz

Agora a colheita. Nada do que vem abaixo é fórmula nova: cada série é a §B com um triedro diferente escolhido. O trabalho intelectual, em todas, é o mesmo e cabe em duas perguntas: quem é o conjunto rígido de vetores? e quem é o \(\vec\omega\) dele?

§C1Série 1 · Frenet–Serret é o \(\Omega\) do triedro intrínseco

No Módulo 1 você construiu \(\hat t, \hat n, \hat b\) geometricamente e chegou nas três equações (derivando em relação ao arco \(s\), não ao tempo):

$$\frac{d\hat t}{ds} = \kappa\,\hat n,\qquad \frac{d\hat n}{ds} = -\kappa\,\hat t + \tau\,\hat b,\qquad \frac{d\hat b}{ds} = -\tau\,\hat n$$
Reconstrua · R12

Monte a matriz \(\Omega\) desse triedro, lembrando que a coluna \(j\) de \(\Omega\) são as componentes de \(\dot{\hat e}_j\) na própria base móvel (§B4). Depois use a tabela de posições do §B6 para ler o \(\vec\omega\). Sem consultar o Módulo 1.

Confira depois de tentar

Com \((\hat e_1,\hat e_2,\hat e_3) = (\hat t,\hat n,\hat b)\):

$$\Omega_{\text{Frenet}}=\begin{pmatrix} 0 & -\kappa & 0\\ \kappa & 0 & -\tau\\ 0 & \tau & 0\end{pmatrix}$$

Ela é antissimétrica — e ninguém impôs isso, saiu da construção geométrica de \(\kappa\) e \(\tau\). Lendo pela tabela: \(\omega_1 = \Omega_{32} = \tau\), \(\omega_2 = \Omega_{13} = 0\), \(\omega_3 = \Omega_{21} = \kappa\). Logo

$$\vec\omega = \tau\,\hat t + \kappa\,\hat b \qquad\text{(vetor de Darboux)}$$

E agora o Darboux deixa de ser fórmula e vira leitura:

  • \(\kappa\,\hat b\) — giro no plano \(\hat t\hat n\), que é o plano onde a curva está entortando. Curvatura = quanto a direção do movimento vira por metro andado.
  • \(\tau\,\hat t\) — giro no plano \(\hat n\hat b\), ou seja, o triedro rolando em torno do próprio avanço. Torção = quanto a curva sai do plano.

Curva plana tem \(\tau = 0\): só o giro de curvatura, nenhum rolamento. Hélice tem os dois, e por isso o Darboux dela aponta numa direção fixa oblíqua.

Detalhe que vale nota

A casa \((1,3)\) da matriz é zero: \(\hat t\) nunca vaza para \(\hat b\). Isso não é sorte — é a definição de \(\hat n\) aparecendo na matriz. \(\hat n\) foi definido como a direção de \(d\hat t/ds\); se essa derivada tivesse componente em \(\hat b\), \(\hat n\) não seria paralelo a ela. E é a mesma razão pela qual \(\vec a\) nunca tem componente em \(\hat b\).

Arco × tempo

O \(\vec\omega\) acima é por metro de arco, não por segundo. Para ter a velocidade angular do triedro no tempo, use a regra da cadeia: \(\vec\omega_{\text{tempo}} = v\,(\tau\hat t + \kappa\hat b)\), com \(v = ds/dt\). Trocar um pelo outro é um erro caro e silencioso.

§C2Série 1 · a base cilíndrica, o caso mais simples possível

A base \((\hat\imath, \vec\tau, \hat u)\) gira em torno do eixo do cilindro com velocidade \(\dot\theta\). O par de derivadas que os livros mandam decorar,

$$\dot{\hat u} = \dot\theta\,\vec\tau,\qquad \dot{\vec\tau} = -\dot\theta\,\hat u$$

é só o teorema com \(\vec\omega = \dot\theta\,\hat\imath\). Confira: \(\dot\theta\,\hat\imath\wedge\hat u = \dot\theta\,\vec\tau\) e \(\dot\theta\,\hat\imath\wedge\vec\tau = -\dot\theta\,\hat u\). A matriz correspondente tem uma única casa livre, \(\Omega_{21} = \dot\theta\) — que é o caso \(n=2\) da tabela do §B6, encaixado dentro do 3D.

Se quiser ver a máquina inteira rodando num caso que cabe na mão, faça a conta com \(Q = \begin{pmatrix}\cos\theta & -\sin\theta\\ \sin\theta & \cos\theta\end{pmatrix}\) e calcule \(Q^{\mathsf T}\dot Q\). Todo seno e cosseno se cancela e sobra \(\begin{pmatrix}0&-\dot\theta\\ \dot\theta&0\end{pmatrix}\). Repare no que a multiplicação por \(Q^{\mathsf T}\) fez: descontou onde o triedro está, deixando só quão rápido ele gira. É o papel dela em toda a §B.

§C3Série 2 · o campo de velocidades do corpo rígido

Aqui o triedro não é acessório de uma curva: são três direções gravadas no próprio corpo. Sejam \(A\) e \(P\) dois pontos do corpo. O vetor \(P - A\) está preso ao corpo, então suas componentes na base do corpo são constantes. Chame-as de \(\vec c\). Em coordenadas fixas:

$$P - A = Q\,\vec c,\qquad \vec c \text{ constante}$$
Reconstrua · R13

Derive a expressão acima no tempo e chegue na fórmula fundamental do corpo rígido. Dica: você vai precisar de \(\dot Q\) escrito com a matriz antissimétrica vista da base fixa, que é \(W = \dot Q Q^{\mathsf T}\) — verifique primeiro que \(\dot Q = WQ\).

Confira depois de tentar

\(\dot Q = WQ\) sai de \(W = \dot QQ^{\mathsf T}\) multiplicando por \(Q\) à direita. Então

$$\vec v_P - \vec v_A = \frac{d}{dt}(Q\vec c) = \dot Q\vec c = WQ\vec c = W\,(P-A) = \vec\omega\wedge(P-A)$$ $$\boxed{\;\vec v_P = \vec v_A + \vec\omega\wedge(P-A)\;}$$

Três linhas, e a fórmula que abre a Série 2 está deduzida — sem nenhuma figura de "velocidade tangencial".

Duas consequências que os exercícios cobram e que ficam óbvias com essa dedução:

  • O \(\vec\omega\) é do corpo, não do par de pontos. Ele veio de \(W\), que depende só de \(Q(t)\) — a orientação do corpo. Escolher outro par \((B, C)\) usa o mesmo \(W\). É por isso que faz sentido falar em "a velocidade angular do corpo".
  • Esse \(\vec\omega\) é único. Se dois vetores servissem, a diferença \(\vec\delta\) satisfaria \(\vec\delta\wedge(P-A) = \vec 0\) para todas as separações possíveis dentro do corpo. Um vetor perpendicular a três direções independentes é o vetor nulo.

E note que esta é a mesma conclusão do §B5 por outro caminho: lá, a rigidez matou a parte simétrica do gradiente do campo de velocidades e sobrou \(W\); aqui, ela apareceu como \(\dot QQ^{\mathsf T}\). Dois caminhos, uma matriz.

§C4Série 3 · o CIR é um determinante diferente de zero

A pergunta da Série 3 é: existe um ponto do plano com velocidade nula? Escreva a pergunta como equação, usando §C3 com \(\vec v_P = \vec 0\):

$$\vec v_A + \vec\omega\wedge(P-A) = \vec 0 \qquad\Longleftrightarrow\qquad \Omega\,(P-A) = -\vec v_A$$

Isso é um sistema linear com incógnita \(P - A\). E a §A6 já nos deu o critério inteiro: tem solução única se e só se o determinante não for zero.

Reconstrua · R14

No plano, \(\vec\omega = \omega\hat k\) e tudo mora em duas dimensões, então \(\Omega\) restrita ao plano é \(\begin{pmatrix}0&-\omega\\ \omega&0\end{pmatrix}\). Calcule o determinante dela. Quando o sistema tem solução única? Ache \(P\) explicitamente. E o que acontece com \(P\) quando \(\omega\to 0\)?

Confira depois de tentar

\(\det = 0\cdot 0 - (-\omega)(\omega) = \omega^2\). Diferente de zero sempre que \(\omega\neq 0\) — então o CIR existe e é único em toda rotação plana. Invertendo (a inversa de uma rotação de 90° é a de \(-90°\)):

$$P = A + \frac{\hat k\wedge\vec v_A}{\omega}$$

Leitura geométrica: ande a partir de \(A\) numa direção perpendicular a \(\vec v_A\), a uma distância \(|\vec v_A|/\omega\).

Quando \(\omega\to0\), o determinante vai a zero e \(P\) foge para o infinito — que é exatamente a descrição correta de uma translação pura: "rotação em torno de um ponto infinitamente distante". Não é força de expressão; é o que o sistema linear responde.

W4 O ponto que não anda

Campo de velocidades de uma placa rígida. Mexa em \(\vec v_A\) e em \(\omega\) e observe o CIR (círculo roxo) obedecer à fórmula. Diminua \(\omega\) até quase zero e veja o determinante — e o CIR — irem embora juntos.

ω
0.00
det = ω²
0.00
distância A→CIR
0.00
CIR
existe e é único

E em três dimensões? O determinante é zero — e isso muda tudo

A mesma equação \(\Omega(P-A) = -\vec v_A\) no espaço esbarra no resultado do §B6: \(\det\Omega = 0\) sempre. Logo o sistema não tem solução para qualquer \(\vec v_A\). Quais ele resolve? Só os \(\vec v_A\) que estão na imagem de \(\Omega\) — e a imagem de \(\Omega\) é o plano perpendicular a \(\vec\omega\).

Decompondo \(\vec v_A = \vec v_\parallel + \vec v_\perp\) (paralela e perpendicular a \(\vec\omega\)): você consegue anular \(\vec v_\perp\), nunca \(\vec v_\parallel\). Mais que isso — a componente paralela é a mesma para todos os pontos do corpo, porque \((\vec\omega\wedge\vec d)\cdot\vec\omega = 0\) para qualquer \(\vec d\): o produto vetorial nunca adiciona nada ao longo do eixo. Ela é um invariante do movimento, não dá para escolher um ponto melhor.

O melhor que existe é uma reta onde só sobra o deslizamento axial:

$$P = A + \frac{\vec\omega\wedge\vec v_A}{|\vec\omega|^2} + \lambda\,\vec\omega,\qquad \vec v_P = \vec v_\parallel$$
ω eixo helicoidal A v_A v∥ v⊥ P v∥ (ω ∧ v_A)/|ω|² — mata só a parte ⊥ det Ω = 0 em 3D ⟹ nenhum ponto tem v = 0 ⟹ o melhor é uma reta
Por que o CIR vira eixo no espaço. A componente de \(\vec v_A\) ao longo de \(\vec\omega\) é a mesma em todos os pontos do corpo — nenhuma escolha de \(P\) a elimina. Sobra a melhor opção possível: uma reta onde o corpo apenas desliza ao longo do próprio eixo enquanto gira. É o movimento helicoidal (teorema de Mozzi–Chasles), e ele é consequência direta de \(\det\Omega = 0\) em dimensão ímpar.
O que ligar na cabeça

"Existe CIR?" é a pergunta "esse determinante é zero?". No plano, \(\det = \omega^2 \neq 0\) e a resposta é um ponto. No espaço, \(\det\Omega = 0\) e a resposta é uma reta com deslizamento. Você não precisa lembrar dos dois teoremas separadamente — eles são o mesmo sistema linear, em duas dimensões diferentes.

§C5Série 4 · por que velocidades angulares somam, e de onde vem o 2 de Coriolis

Um referencial gira dentro de outro que já gira. Se o corpo tem orientação \(Q_2\) dentro do referencial intermediário, e o intermediário tem orientação \(Q_1\) dentro do fixo, então a orientação total é a composição: \(Q = Q_1Q_2\).

Reconstrua · R15

Calcule \(W = \dot QQ^{\mathsf T}\) para \(Q = Q_1Q_2\). Use a regra do produto e \(Q_2Q_2^{\mathsf T} = I\). Você deve chegar em algo da forma \(W_1 + (\text{alguma coisa})\). Depois interprete essa "alguma coisa" com a fórmula de mudança de base da §A8.

Confira depois de tentar $$W = (\dot Q_1Q_2 + Q_1\dot Q_2)(Q_2^{\mathsf T}Q_1^{\mathsf T}) = \dot Q_1Q_1^{\mathsf T} + Q_1(\dot Q_2Q_2^{\mathsf T})Q_1^{\mathsf T} = W_1 + Q_1W_2Q_1^{\mathsf T}$$

O termo \(Q_1W_2Q_1^{\mathsf T}\) é exatamente \(W_2\) traduzido para a base fixa (§A8). Em linguagem de vetores, isso é \(Q_1\vec\omega_2\) — o \(\vec\omega_2\) reescrito nas coordenadas de fora. Logo, com tudo escrito na mesma base:

$$\boxed{\;\vec\omega = \vec\omega_1 + \vec\omega_2\;}$$

As velocidades angulares somam porque as matrizes antissimétricas formam um espaço vetorial (§B7), e a conjugação \(Q_1(\cdot)Q_1^{\mathsf T}\) é só a tradução de idioma. A soma não é uma aproximação nem uma convenção: é exata.

O teorema do transporte

Seja \(\vec u\) um vetor qualquer — a posição de uma formiga andando num disco que gira, por exemplo. Escreva as componentes dele na base móvel como \(\vec a(t)\); em coordenadas fixas, \(\vec u = Q\vec a\). Derive, usando \(\dot Q = WQ\):

$$\dot{\vec u} = \dot Q\vec a + Q\dot{\vec a} = W\,Q\vec a + Q\dot{\vec a} = \vec\omega\wedge\vec u + \underbrace{Q\dot{\vec a}}_{\text{o que a formiga faz}}$$ $$\boxed{\;\left(\frac{d\vec u}{dt}\right)_{\text{fixo}} = \left(\frac{d\vec u}{dt}\right)_{\text{relativa}} + \vec\omega\wedge\vec u\;}$$

Em palavras: variação total = o que a formiga faz andando + o que o disco faz carregando a formiga. É a regra do produto aplicada a \(Q\vec a\), e nada mais. O termo \(x\,\dot{\hat\imath}\) que o §1.1 do Módulo 1 mandou guardar no bolso é justamente o \(\dot Q\vec a\).

Aplique duas vezes e conte de onde vem o 2

Com \(\vec\rho = Q\vec a\) (posição relativa à origem móvel), a primeira derivada dá \(\dot{\vec\rho} = \vec\omega\wedge\vec\rho + \vec v_{\text{rel}}\), onde \(\vec v_{\text{rel}} = Q\dot{\vec a}\). Derivando de novo, com cuidado para aplicar a regra do produto em cada parcela:

$$\ddot{\vec\rho} = \underbrace{\dot{\vec\omega}\wedge\vec\rho}_{\text{Euler}} + \underbrace{\vec\omega\wedge(\vec\omega\wedge\vec\rho)}_{\text{centrípeta}} + \underbrace{\vec\omega\wedge\vec v_{\text{rel}}}_{\text{de dentro do } \vec\omega\wedge\dot{\vec\rho}} + \underbrace{\vec\omega\wedge\vec v_{\text{rel}}}_{\text{de } \dot Q\dot{\vec a}} + \underbrace{\vec a_{\text{rel}}}_{Q\ddot{\vec a}}$$
A resposta para "por que 2 vezes ômega vetorial vê-relativa"

Porque o termo aparece duas vezes, de dois lugares diferentes: uma vez quando você deriva \(\vec\omega\wedge\vec\rho\) e o \(\dot{\vec\rho}\) traz o \(\vec v_{\text{rel}}\) junto; outra vez quando você deriva \(Q\dot{\vec a}\) e o \(\dot Q\) produz mais um \(\vec\omega\wedge\). Os dois somam, e daí o 2. Não é um fator de correção empírico — é dupla contagem legítima da mesma regra do produto.

Onde isso fecha o ciclo

Repare que a Série 4 inteira saiu de \(\frac{d}{dt}(Q\vec a)\) — a mesma expressão que abriu a §B. Do começo ao fim, a Lista 2 é a regra do produto aplicada a um produto de matriz ortogonal por vetor. Quatro séries, uma linha.

§D

Kit: as contas do dia a dia, relidas

Esta parte é utilitária. São quatro ferramentas que você já usa resolvendo exercício, aqui reescritas na linguagem da §A — porque escritas assim elas param de ser fórmulas para decorar.

§D1Decompor um vetor é aplicar uma matriz de projeção

Quando você escreve \(\vec a = a_t\,\hat t + a_n\,\hat n\), você está projetando. A projeção sobre uma direção unitária \(\hat t\) é \((\vec a\cdot\hat t)\,\hat t\) — e isso é uma transformação linear de \(\vec a\), então tem matriz:

$$P = \hat t\,\hat t^{\mathsf T}$$

(um vetor coluna vezes um vetor linha dá uma matriz — é o "produto externo", o irmão esquecido do produto escalar). Duas propriedades que valem a pena checar na mão: \(P^{\mathsf T} = P\) (é simétrica, portanto deforma, não gira — §B5) e \(P^2 = P\) (projetar duas vezes é projetar uma; a segunda não tem mais o que tirar).

E o complemento \(I - P\) projeta no plano perpendicular a \(\hat t\). Assim:

$$\vec a_t = (\hat t\hat t^{\mathsf T})\,\vec a, \qquad \vec a_n = (I - \hat t\hat t^{\mathsf T})\,\vec a$$
Reconstrua · R16

Usando \(\vec v = v\hat t\) e \(\vec a = a_t\hat t + a_n\hat n\), deduza as três fórmulas do kit do Módulo 1: (i) \(a_t = \vec v\cdot\vec a/v\); (ii) \(|\vec v\wedge\vec a| = v^3/\rho\); (iii) \(\hat b = \vec v\wedge\vec a/|\vec v\wedge\vec a|\). Dica para (ii): calcule \(\vec v\wedge\vec a\) distribuindo e lembre que \(\hat t\wedge\hat t = \vec 0\).

Confira depois de tentar

(i) \(\vec v\cdot\vec a = v\hat t\cdot(a_t\hat t + a_n\hat n) = v\,a_t\), logo \(a_t = \vec v\cdot\vec a/v\). O \(\hat n\) morreu porque é perpendicular a \(\hat t\).

(ii) \(\vec v\wedge\vec a = v\hat t\wedge(a_t\hat t + a_n\hat n) = v\,a_n\,(\hat t\wedge\hat n) = v\,a_n\,\hat b\). Como \(a_n = v^2/\rho\), o módulo é \(v\cdot v^2/\rho = v^3/\rho\).

(iii) Cai de graça da conta acima: \(\vec v\wedge\vec a\) já é um múltiplo positivo de \(\hat b\), então normalizar dá \(\hat b\). Os três resultados do kit são uma conta só, feita com projeções.

§D2Produto misto é um determinante — e as identidades vêm dele

O produto misto \((\vec a\wedge\vec b)\cdot\vec c\) é o determinante da matriz que tem \(\vec a,\vec b,\vec c\) nas linhas, que pela §A5 é o volume orientado do paralelepípedo formado pelos três. Dessa única frase saem, sem decorar:

  • Permutação cíclica não muda nada: \((\vec a\wedge\vec b)\cdot\vec c = (\vec b\wedge\vec c)\cdot\vec a\). São duas trocas de linha, dois sinais que se cancelam — e afinal o volume da caixa não depende de qual aresta você chamou de primeira.
  • Trocar dois vetores inverte o sinal — uma troca de linha, orientação invertida.
  • Três vetores coplanares dão zero — caixa achatada, determinante zero, exatamente o critério da §A6.

E a identidade do duplo produto vetorial, que aparece na aceleração centrípeta e na dedução do eixo helicoidal:

$$\vec a\wedge(\vec b\wedge\vec c) = \vec b\,(\vec a\cdot\vec c) - \vec c\,(\vec a\cdot\vec b)$$

A forma de lembrar sem decorar ordem de letras: o resultado é perpendicular a \(\vec b\wedge\vec c\), portanto está no plano de \(\vec b\) e \(\vec c\) — só pode ser uma combinação desses dois. Os coeficientes são produtos escalares com o vetor de fora, e o sinal de menos vai no que está mais "para dentro" dos parênteses.

§D3Traduzir \(\vec\omega\) entre bases sem errar

Existem duas matrizes antissimétricas na história, e trocar uma pela outra estraga conta:

definiçãocomponentes escritas naonde aparece
\(\Omega\)\(Q^{\mathsf T}\dot Q\)base móvel (a que gira junto)Frenet–Serret, base cilíndrica
\(W\)\(\dot QQ^{\mathsf T}\)base fixa (a do laboratório)fórmula do corpo rígido, CIR

As duas são o mesmo movimento em idiomas diferentes: \(W = Q\Omega Q^{\mathsf T}\), que é a fórmula de mudança de base da §A8. Em linguagem de vetores:

$$\vec\omega_{\text{fixa}} = Q\,\vec\omega_{\text{móvel}}$$

Analogia: você dirige numa rotatória. O velocímetro mede sua velocidade em relação ao chão que passa embaixo (instrumento que gira junto); um radar na beira mede a mesma velocidade em coordenadas do mapa. Mesmo movimento, duas réguas, dois conjuntos de números.

Na hora da prova

O Darboux \(\vec\omega = \tau\hat t + \kappa\hat b\) está escrito na base móvel. Se o exercício pede \(\vec\omega\) em \((\hat\imath,\hat\jmath,\hat k)\), você precisa substituir \(\hat t\) e \(\hat b\) pelas componentes cartesianas deles naquele instante. Escrever os dois conjuntos de números no mesmo vetor é o erro do §A1 acontecendo de novo.

§D4Mecanismo travado é determinante zero

Um mecanismo plano impõe vínculos: este ponto anda só na horizontal, aquele só na vertical, aquela barra tem comprimento fixo. Cada vínculo vira uma equação; as incógnitas são as velocidades e os \(\omega\). O resultado é sempre um sistema linear, e §A6 governa tudo.

Reconstrua · R17

Barra \(AB\) com \(A = (a,0)\) deslizando num trilho horizontal (velocidade \(v_A\) conhecida, na direção \(x\)) e \(B = (0,b)\) num trilho vertical (velocidade \(v_B\) desconhecida, na direção \(y\)). A incógnita extra é \(\omega\). Monte o sistema com \(\vec v_B = \vec v_A + \omega\hat k\wedge(B-A)\), ache a matriz dos coeficientes e o determinante. Em que posição o mecanismo trava?

Confira depois de tentar

Com \(B - A = (-a, b, 0)\), temos \(\omega\hat k\wedge(B-A) = \omega(-b, -a, 0)\). Componente a componente:

x: \(0 = v_A - \omega b\)   ·   y: \(v_B = -\omega a\)

Nas incógnitas \((\omega, v_B)\), a matriz dos coeficientes é \(\begin{pmatrix}-b & 0\\ a & 1\end{pmatrix}\), com \(\det = -b\).

O determinante zera quando \(b = 0\) — a barra deitada no trilho horizontal. Nessa posição o sistema não tem solução (a não ser com \(v_A = 0\)): é o ponto morto do mecanismo, e a álgebra linear avisa antes de você tentar desenhar o CIR. Repare também que \(\omega = v_A/b \to \infty\) quando \(b\to 0\): a matemática grita antes de travar.

Padrão para a Série 3 inteira

Escreva uma equação vetorial por vínculo, separe em componentes, empilhe numa matriz, calcule o determinante. Determinante \(\neq 0\) → configuração normal, solução única. Determinante \(= 0\) → ponto morto, ou movimento indeterminado. É o mesmo critério do CIR (§C4) e do eixo (§B6), pela terceira vez.

§E

Fecho: o mapa, o auto-teste e o que vem depois

§E1Mapa de dependências

Se algo do guia não fechar, é quase sempre porque uma destas peças está solta. Use como diagnóstico:

Se você trava em…a peça de álgebra linear é…seção
por que a derivada de um versor é perpendicular a eleproduto escalar constante + regra do produto§A3, §B4
por que aparece produto vetorial em tudoantissimétrica 3×3 tem 3 números livres e age como \(\vec\omega\wedge\)§B6
por que existe um eixo de rotaçãodeterminante de antissimétrica ímpar é zero → núcleo§A5, §A6, §B6
por que Frenet–Serret tem essa caraé o \(\Omega\) do triedro; as casas são planos de giro§B4, §C1
por que \(\vec v_B = \vec v_A + \vec\omega\wedge(B-A)\)derivar \(Q\vec c\) com \(\vec c\) constante§C3
por que o CIR existe (e por que some)sistema linear com \(\det = \omega^2\)§A6, §C4
por que no espaço vira eixo helicoidal\(\det\Omega = 0\): a componente axial é invariante§C4
por que \(\vec\omega\) de dois giros soma\(\mathfrak{so}(3)\) é espaço vetorial; conjugação = mudar de base§A8, §B7, §C5
por que Coriolis tem fator 2regra do produto aplicada duas vezes em \(Q\vec a\)§C5
por que um mecanismo trava numa posiçãodeterminante do sistema de vínculos vai a zero§D4
por que rotação finita não soma mas \(\vec\omega\) somagrupo curvo × espaço tangente plano§B7

§E2Auto-teste: explique em voz alta, sem consultar

Se as sete saírem redondas, esta página está fechada
  1. Por que \(Q^{\mathsf T}Q = I\) é a mesma coisa que "o tripé é rígido" — pelas colunas e pelos produtos escalares preservados.
  2. Por que \(\det Q\) não pode virar \(-1\) no meio de um movimento.
  3. De onde vem a antissimetria de \(\Omega\) — e o que a diagonal e o que as casas de fora proíbem, separadamente.
  4. Por que rigidez elimina a parte simétrica do gradiente de velocidades, e o que isso tem a ver com os 6 graus de liberdade do corpo rígido.
  5. Por que uma matriz antissimétrica \(3\times3\) apaga exatamente uma direção — usando determinante, não a fórmula do produto vetorial.
  6. Por que o CIR existe no plano e vira eixo no espaço, em termos de um único determinante.
  7. Por que as velocidades angulares somam, se as rotações não comutam.

§E3O que vem depois desta página

Três portas que se abrem assim que essa maquinaria está no lugar — nenhuma é da Lista 2, mas todas estão a um passo:

próxima disciplina

Tensor de inércia

\(\vec L = \mathbf I\,\vec\omega\) é uma transformação linear, e \(\mathbf I\) é simétrica — o oposto de \(\Omega\). Pelo teorema espectral, ela tem base ortonormal de autovetores: são os eixos principais. Por isso \(\vec L\) quase nunca é paralelo a \(\vec\omega\), e por isso existe um jeito de escolher eixos onde ele é.

o contraste que organiza tudo

Simétrica × antissimétrica

Simétrica: autovetores reais, estica ao longo deles. Antissimétrica: nenhum autovetor real fora do eixo, gira. Toda matriz é a soma das duas (§B5). Deformação e rotação são literalmente as duas metades de uma matriz.

computação e robótica

Quatérnions

Aquele fato de \(K\) se comportar como \(i\) (§B7) não é coincidência: existe uma cópia dos números complexos dentro de cada plano de rotação. Levar isso a sério em 3D produz os quatérnions, que é como toda simulação e todo drone guardam orientação hoje.

§E4Como me chamar a partir daqui

Os códigos desta página não colidem com os dos módulos: aqui é §A–§E e R1–R17, lá é §0–§7. Algumas formas de pergunta que rendem:

  • "o R8 — não consegui provar que a forma quadrática zerada implica \(D=0\)" — travou num passo específico, eu abro o passo.
  • "refaz o §C4 supondo que eu não sei o que é imagem de uma matriz" — troco a ferramenta usada na explicação.
  • "me arguí sobre §B5 e §B6" — eu pergunto, você responde, eu corrijo. É o que mais funciona.
  • "o W3 não está batendo com o que eu esperava para \(\omega\) na direção de ê₂" — dúvida sobre visualização, com o caso concreto.
  • "aplica o §D4 no exercício L2-3.2" — trago o padrão para o exercício da sua lista.
Ponte

Os quatro módulos partem exatamente de onde as seções desta página param: o Módulo 2 continua o §C3, o Módulo 3 continua o §C4 e o Módulo 4 continua o §C5. Se você fechou o §B, os três vão parecer curtos — porque a parte difícil já está feita aqui.