Guia de Mecânica · Módulo 2 · Série #2 da Lista 2

Infinitos pontos, seis números

Um corpo rígido tem infinitos pontos e você não vai acompanhar nenhum deles. Vai acompanhar dois vetores — e eles bastam para saber a velocidade de qualquer ponto, em qualquer instante. Este módulo mostra de onde vem essa compressão absurda, e o argumento é o mesmo Lema do Módulo 1 mudando de endereço.

§0

O mapa: o que muda do Módulo 1 para cá

No Módulo 1 havia um ponto andando numa curva. A base intrínseca , , viajava com ele, e o que descobrimos foi que essa base só podia girar — com um único \(\vec\omega\) mandando em todo mundo.

Agora não é um ponto. É um corpo: uma barra, um disco, uma engrenagem, um tanque de guerra. Infinitos pontos de uma vez. Parece infinitamente mais difícil.

É mais fácil. E o motivo cabe numa frase:

Por que o corpo rígido é o caso fácil

Um corpo rígido é, por definição, um conjunto de pontos em que toda distância interna é constante. Mas "módulo constante" é exatamente a hipótese do Lema do Módulo 1. O corpo rígido não é um assunto novo — é o Lema aplicado a um vetor novo: \((B - A)\).

E o destino deste módulo é esta fórmula, que você vai usar até o fim da disciplina:

$$\vec v_B = \vec v_A + \vec\omega \wedge (B - A)$$

Leia o que ela diz, porque é chocante: escolha um ponto do corpo e saiba sua velocidade (3 números); saiba o \(\vec\omega\) (mais 3 números). Pronto — você sabe a velocidade de todos os infinitos pontos. Seis números descrevendo um infinito. Não é um truque de conta; é uma consequência da rigidez, e nas próximas seções ela é construída do zero.

SérieQuem é o \(\vec\omega\)Onde
#1vetor de Darboux \(\tau\,\)\(+\kappa\,\) do triedroMódulo 1
#2o vetor rotação do corpo rígidoaqui
#3o mesmo, achatado no plano — e daí nasce o CIRMódulo 3
#4o \(\vec\omega\) do referencial móvel — e daí nasce CoriolisMódulo 4
Como usar este guia

Cada seção tem um código (§3.2, V2, P-B). Quando algo não fechar, me chame pelo código: "não entendi o §3.2", "refaz o V1 com ω negativo", "aplica o P-B no L2-2.2".

As caixas "Confira depois de tentar" escondem resultados. Tente antes — quem lê a resposta primeiro aprende a reconhecer, não a fazer.

§1

O vínculo: uma distância constante é um Lema disfarçado

§1.1A definição inteira de corpo rígido

Um corpo rígido é um conjunto de pontos tal que, para quaisquer dois deles,

$$\left|B - A\right| = \text{constante no tempo}$$

Só isso. Não há hipótese sobre formato, massa, simetria ou material. Tudo o que vem a seguir — inclusive a existência do \(\vec\omega\) — sai dessa única linha.

§1.2Derive e pronto

Em vez de derivar o módulo (que tem raiz quadrada e incomoda), derive o quadrado:

$$\left|B-A\right|^2 = (B-A)\cdot(B-A) = \text{const}$$

Derivando os dois lados pela regra do produto,

$$2\,(B-A)\cdot\frac{d(B-A)}{dt} = 0 \quad\Longrightarrow\quad \boxed{\;(B-A)\;\perp\;\frac{d(B-A)}{dt}\;}$$

Esse é o Lema do Módulo 1, palavra por palavra. Lá o vetor de módulo constante era um versor da base; aqui é a flecha que liga dois pontos do corpo. A demonstração não muda porque ela só usa o produto escalar — não interessa o que o vetor representa.

Isto é o L2-2.3, itens (a) e (c)

O item (a) pede exatamente \(\frac{d(B-A)}{dt} \perp (B-A)\) — está demonstrado acima, em duas linhas.

O item (c) pede que \(\vec v_B - \vec v_A\) seja ortogonal a \((B-A)\). Mas \(\frac{d(B-A)}{dt} = \vec v_B - \vec v_A\), porque derivar a posição de cada ponto dá a velocidade dele. É o mesmo item escrito com outras letras. Dois terços do exercício caem de uma vez só.

§1.3O que essa ortogonalidade está te dizendo

Decomponha \(\vec v_B - \vec v_A\) em duas partes: uma ao longo da reta \(AB\) e outra perpendicular a ela. O que acabamos de provar é que a parte ao longo da reta é sempre nula.

Faz sentido físico direto. A componente ao longo de \(AB\) é a velocidade com que \(B\) se afasta ou se aproxima de \(A\) — é a taxa de variação da distância. Se ela não fosse zero, o corpo estaria esticando ou encolhendo. Ele não pode. Logo ela é zero.

E a componente perpendicular? Essa é livre. Ela é, literalmente, a rotação: a única coisa que sobra para um par de pontos rígidos fazer é um girar em volta do outro.

§2

Equiprojetividade: o corpo não estica, e isso vira um teste

Reescreva \((B-A)\cdot(\vec v_B - \vec v_A) = 0\) abrindo o parêntese:

$$\vec v_B \cdot (B-A) = \vec v_A\cdot(B-A)$$

Dividindo pelo comprimento, com \(\hat u\) o versor de \(A\) para \(B\):

$$\boxed{\;\vec v_A\cdot\hat u = \vec v_B\cdot\hat u\;}$$

Em palavras: dois pontos de um corpo rígido têm a mesma projeção de velocidade sobre a reta que os une. As velocidades podem ser completamente diferentes em módulo e direção — mas a sombra delas sobre a reta \(AB\) é obrigatoriamente a mesma. Esse é o L2-2.3(b), e é a propriedade chamada equiprojetividade.

V1 A barra que não estica

As duas sombras roxas sobre a barra são as projeções de \(\vec v_A\) e \(\vec v_B\). Mexa em \(\omega\) à vontade: as velocidades mudam, as sombras não se separam. Agora abra a "componente proibida" — você adiciona a \(B\) uma velocidade ao longo da barra, e ela começa a esticar na sua frente.

v_A · û
0.00
v_B · û
0.00
d|AB|/dt
0.00
|AB|
1.00
velocidades projeções sobre a barra comprimento original

§2.1Por que isso é uma arma, e não uma curiosidade

Equiprojetividade é uma condição necessária: se um conjunto de pontos e velocidades é rígido, ela vale. A utilidade prática vem da contrapositiva — se ela falha em um único par, aqueles pontos não podem pertencer ao mesmo corpo rígido. É um teste de eliminação que custa um produto escalar.

É exatamente o que o L2-2.2(a) pede: dadas as posições de \(A\), \(C\), \(D\) e duas hipóteses para \(\vec v_C\), decidir qual é possível. Não precisa achar \(\vec\omega\), não precisa montar sistema nenhum. Calcule as projeções par a par e veja qual hipótese sobrevive.

  • Liste os pares de pontos que você tem.
  • Para cada par \((X,Y)\), calcule \(\vec v_X\cdot(Y-X)\) e \(\vec v_Y\cdot(Y-X)\). Note que dá para usar \((Y-X)\) sem normalizar — se os dois lados são iguais com o vetor, são iguais com o versor.
  • Um par que discorda mata a hipótese na hora. Se todos concordam, ela sobrevive (e aí sim vale procurar \(\vec\omega\)).
Confira depois de tentar · o teste aplicado ao L2-2.2(a)

Com \(A(0,2,1)\), \(C(1,3,1)\), \(D(0,3,2)\), \(\vec v_A = \vec\jmath\) e \(\vec v_D = 2\vec\imath + \vec k\):

Par\(Y - X\)\(\vec v_X\cdot(Y-X)\)\(\vec v_Y\cdot(Y-X)\) com \(\vec v_C = \vec\imath\)… com \(\vec v_C = -\vec\imath\)
A, C\((1,1,0)\)11 ✓\(-1\) ✗
A, D\((0,1,1)\)11 ✓1 ✓
C, D\((-1,0,1)\)\(-1\) / \(+1\)\(-1\) ✓\(-1\) ✗

O par \(A,C\) sozinho já derruba \(\vec v_C = -\vec\imath\). Sobra \(\vec v_C = \vec\imath\), e ela passa em todos os pares. Repare que o trabalho foi aritmética de produto escalar — nenhum produto vetorial, nenhum sistema.

Vale saber · a recíproca também é verdadeira

Um campo de velocidades equiprojetivo é necessariamente da forma \(\vec v_P = \vec v_A + \vec\omega\wedge(P-A)\). Ou seja: equiprojetividade não é uma consequência da rigidez — ela é a rigidez, vista do lado das velocidades. As duas descrições dizem a mesma coisa. Guarde isso: é o tipo de equivalência que transforma um enunciado "mostre que" numa linha.

§3

De onde sai \(\vec v_B = \vec v_A + \vec\omega\wedge(B-A)\)

O §2 disse o que não pode acontecer (esticar). Agora vamos construir o que pode. A ferramenta é a mesma do Módulo 1 §1.3 — só que aplicada ao corpo inteiro.

§3.1Todo movimento rígido é translação mais rotação

Escolha um ponto qualquer do corpo para servir de referência — chame de \(A\). Qualquer outro ponto \(P\) pode ser escrito como

$$P(t) = A(t) + Q(t)\,\big(P_0 - A_0\big)$$

onde \(P_0 - A_0\) é a flecha de \(A\) até \(P\) no instante inicial e \(Q(t)\) é a matriz que leva a configuração inicial na atual. Duas observações que carregam todo o peso:

  • \(Q\) é ortogonal — \(Q^{\mathsf T}Q = I\) — porque ela tem que preservar comprimentos e ângulos. É a rigidez, escrita em matriz.
  • \(Q\) é a mesma para todos os pontos. Não existe uma matriz para \(P\) e outra para \(P'\): o corpo gira inteiro, de uma vez. É isso que vai fazer o \(\vec\omega\) ser único.

§3.2Derive, e a antissimetria aparece sozinha

Derivando a expressão de \(P(t)\), com \(P_0 - A_0\) constante:

$$\vec v_P = \vec v_A + \dot Q\,(P_0-A_0)$$

Mas \(P_0 - A_0 = Q^{\mathsf T}(P-A)\) (basta inverter a primeira equação, e para matriz ortogonal a inversa é a transposta). Substituindo:

$$\vec v_P = \vec v_A + \underbrace{\dot Q Q^{\mathsf T}}_{\textstyle \Omega}\,(P-A)$$

Agora o passo do Módulo 1: derive \(QQ^{\mathsf T} = I\) e obtenha \(\dot Q Q^{\mathsf T} + Q\dot Q^{\mathsf T} = 0\), isto é, \(\Omega + \Omega^{\mathsf T} = 0\). \(\Omega\) é antissimétrica. Não foi escolha, foi imposição da ortogonalidade.

E uma matriz antissimétrica \(3\times3\) tem apenas três números livres, que se organizam num vetor:

$$\Omega = \begin{pmatrix} 0 & -\omega_3 & \omega_2\\ \omega_3 & 0 & -\omega_1\\ -\omega_2 & \omega_1 & 0\end{pmatrix}, \qquad \Omega\,\vec r = \vec\omega\wedge\vec r$$

Trocando \(\Omega(P-A)\) por \(\vec\omega\wedge(P-A)\), está pronto:

A fórmula fundamental do corpo rígido $$\vec v_P = \vec v_A + \vec\omega\wedge(P-A)$$

Ela não foi postulada nem decorada: é a derivada de "o corpo não deforma", traduzida por \(SO(3)\).

Complementos: A mesma dedução por outro caminho — derivando \(P-A = Q\vec c\) com \(\vec c\) constante, em três linhas — está no §C3 dos Complementos, junto com a prova de que esse \(\vec\omega\) é único — abrir o §C3 →

§3.3O \(\vec\omega\) é do corpo, não do ponto que você escolheu

Essa é a propriedade que mais rende em prova, e quase ninguém percebe que precisa de demonstração. Escolhemos \(A\) arbitrariamente lá atrás. E se um colega escolher \(A'\)? Ele vai achar um \(\vec\omega'\) diferente?

Não. Aplique a fórmula no próprio \(A'\): \(\vec v_{A'} = \vec v_A + \vec\omega\wedge(A'-A)\). Agora escreva a velocidade de um \(P\) genérico das duas maneiras e iguale:

$$\vec v_A + \vec\omega\wedge(P-A) \;=\; \underbrace{\vec v_A + \vec\omega\wedge(A'-A)}_{\vec v_{A'}} + \vec\omega\,'\wedge(P-A')$$

Cancelando \(\vec v_A\) e usando \(\vec\omega\wedge(P-A) - \vec\omega\wedge(A'-A) = \vec\omega\wedge(P-A')\), sobra

$$\big(\vec\omega - \vec\omega\,'\big)\wedge(P-A') = \vec 0 \quad\text{para \emph{todo} } P$$

Um vetor que dá produto vetorial nulo com todas as direções do espaço só pode ser o vetor nulo. Logo \(\vec\omega\,' = \vec\omega\).

A leitura intuitiva é melhor ainda: \(\vec v_A\) depende de onde você olha, porque cada ponto do corpo passeia de um jeito. Mas \(\vec\omega\) mede a taxa com que a orientação do corpo muda — e orientação é uma propriedade do corpo inteiro, não de um ponto. Não há como o corpo girar depressa "perto de \(A\)" e devagar "perto de \(A'\)".

V2 O campo inteiro, e o ponto que não se mexe

Cada seta é a velocidade daquele ponto da peça. Troque o ponto-base entre \(A\), \(B\) e \(C\): a velocidade de referência muda completamente, o campo desenhado não muda um pixel, e o \(\omega\) do painel fica travado no mesmo número. Repare também no anel vermelho: ali a velocidade é exatamente zero — guarde esse ponto, o Módulo 3 inteiro mora nele.

ponto-base
A
v do ponto-base
0.00
ω (não muda)
0.60
|I − base|
0.00
campo de velocidades ponto-base e sua velocidade ponto de velocidade nula

Duas leituras que valem o preço do módulo:

  • Seis números, seis graus de liberdade. \(\vec v_A\) tem 3 componentes, \(\vec\omega\) tem 3. É por isso que um corpo rígido livre no espaço tem exatamente 6 graus de liberdade — o número não veio de contar parafusos, veio da estrutura da fórmula.
  • O campo de velocidades é uma função afim da posição. \(\vec v(P) = \vec v_A + \Omega(P-A)\) é "constante mais matriz vezes posição". E a matriz não é qualquer uma: é antissimétrica. Toda a cinemática do corpo rígido é isso.
§4

O kit: achar \(\vec\omega\) e as velocidades que faltam

§4.1Um par de pontos não determina \(\vec\omega\) — e o motivo é bonito

Suponha que você conhece \(\vec v_A\) e \(\vec v_B\) e quer \(\vec\omega\). A equação disponível é

$$\vec v_B - \vec v_A = \vec\omega\wedge(B-A)$$

Parece três equações para três incógnitas, mas não é: o lado esquerdo é obrigatoriamente perpendicular a \((B-A)\) (foi o §1), então uma das três equações não traz informação nova. Sobram duas.

Quem sumiu foi a componente de \(\vec\omega\) ao longo de \(AB\) — e o produto vetorial a mata: \(\vec\omega_\parallel \wedge (B-A) = \vec 0\). A tradução física é imediata e você já viu isso na vida real: girar o corpo em torno do próprio eixo \(AB\) não move nem \(A\) nem \(B\). Um espeto girando não desloca as pontas.

Conclusão prática: para fixar \(\vec\omega\) no espaço você precisa de dois pares não colineares. É exatamente por isso que o L2-2.2 te dá quatro pontos, e não dois.

§4.2No plano, tudo vira um número (e um quarto de volta)

Se o movimento é plano, \(\vec\omega = \omega\,\vec k\) — só uma incógnita escalar. E o produto vetorial com \(\vec k\) tem uma cara muito concreta:

$$\vec k \wedge (a,\,b,\,0) = (-b,\,a,\,0)$$

Ou seja: multiplicar por \(\vec k\wedge\) é girar 90° no sentido anti-horário. Então a fórmula fundamental, no plano, diz algo que dá para desenhar:

A fórmula fundamental no plano, em português

A diferença de velocidades \(\vec v_B - \vec v_A\) é o vetor \((B-A)\) girado um quarto de volta e multiplicado por \(\omega\). Só isso. Se você enxergar essa figura, resolve a Série 3 inteira quase sem conta.

Daí sai o roteiro do L2-2.1: monte \(\vec v_B - \vec v_A = \omega\,\vec k\wedge(B-A)\), compare componente a componente e saia com \(\omega\) e com o \(m\) que faltava. Com \(\omega\) na mão, \(\vec v_C\) é uma substituição.

Confira depois de tentar · L2-2.1

\(B-A = (1,-1)\), então \(\vec k\wedge(B-A) = (1,1)\). E \(\vec v_B - \vec v_A = (2,\; m+2)\).

Igualando: \(\omega(1,1) = (2,\,m+2)\) dá \(\omega = 2\) e \(m = 0\).

Para \(C(-1,1)\): \(C-A = (-2,-1)\), \(\vec k\wedge(C-A) = (1,-2)\), logo \(\vec v_C = (1,-2) + 2(1,-2) = 3\vec\imath - 6\vec\jmath\). Repare que \(\vec v_C\) saiu paralelo a \(\vec v_A\) — coincidência desse arranjo, não regra.

§4.3Quando dois pontos têm a mesma velocidade

O L2-2.4 é um presente, se você não tentar força bruta. Se \(\vec v_P = \vec v_Q\), a fórmula fundamental aplicada ao par dá

$$\vec\omega\wedge(P-Q) = \vec 0$$

Um produto vetorial só zera em dois casos, e eles são os dois itens do enunciado:

  • \(\vec\omega = \vec 0\) — o corpo não gira naquele instante: ato de movimento translatório, e aí todos os pontos têm a mesma velocidade, não só \(P\) e \(Q\);
  • \((P-Q)\) é paralelo a \(\vec\omega\) — os dois pontos estão sobre uma mesma reta na direção do eixo de rotação, e girar em torno dessa direção não os distingue.

O exercício inteiro é uma linha de álgebra mais a leitura correta de "produto vetorial nulo". Nenhuma conta.

V3 O ângulo que anula a diferença

O eixo dourado é \(\vec\omega\). Gire o segmento \(PQ\) e observe \(|\vec v_P - \vec v_Q| = \omega\,|PQ|\,\mathrm{sen}\,\theta\): ela encolhe conforme o segmento se alinha com o eixo e some exatamente em \(\theta = 0^\circ\). Não é aproximação — é o produto vetorial zerando.

θ
62°
|v_P − v_Q|
0.00
sen θ
0.00
eixo ω velocidades de P e Q a diferença
Você querUseCuidado
a velocidade de um ponto qualquer\(\vec v_P = \vec v_A + \vec\omega\wedge(P-A)\)\(A\) precisa ser um ponto do mesmo corpo
testar se pontos são do mesmo corpo\(\vec v_X\cdot(Y-X) = \vec v_Y\cdot(Y-X)\)condição necessária: serve para eliminar
\(\vec\omega\) no espaçodois pares não colineares em \(\vec v_B - \vec v_A = \vec\omega\wedge(B-A)\)um par só deixa a componente paralela indeterminada
\(\omega\) no plano\(\vec v_B - \vec v_A = \omega\,\vec k\wedge(B-A)\), um quarto de voltasinal: \(\omega>0\) é anti-horário
concluir de \(\vec v_P = \vec v_Q\)\(\vec\omega\wedge(P-Q)=\vec 0\)são dois casos, não um
§5

Roteiro de ataque da Série #2

Quatro exercícios, quatro padrões. Identifique o padrão antes de escrever qualquer coisa.

PadrãoComo o enunciado se pareceO que fazerCai em
P-A
triagem
"estes pontos podem pertencer ao mesmo corpo rígido?" Equiprojetividade par a par. Um par que falha encerra o assunto. L2-2.2(a)
P-B
montar e resolver
"determine \(\vec\omega\)", "determine a velocidade de B" \(\vec v_Y - \vec v_X = \vec\omega\wedge(Y-X)\) para pares não colineares. No plano, uma equação basta. L2-2.1, L2-2.2(b,c)
P-C
demonstrar
"demonstrar que…", sem números Derive o vínculo \(|B-A|^2=\)const e leia o resultado. Não tente achar \(\vec\omega\). L2-2.3
P-D
anular
"mostre que então ouou …" Escreva a condição, chegue num produto vetorial nulo e liste os dois casos que o anulam. L2-2.4

§5.1O procedimento genérico, quando tudo falhar

  • Identifique os corpos. Cada peça rígida tem o seu \(\vec\omega\). Pontos de corpos diferentes não conversam pela fórmula fundamental — só por vínculos de contato (isso é o Módulo 3).
  • Escolha o ponto-base esperto. O melhor \(A\) é aquele cuja velocidade você já conhece, de preferência um ponto fixo (\(\vec v_A = \vec 0\) mata metade da fórmula).
  • Monte \(\vec v_Y - \vec v_X = \vec\omega\wedge(Y-X)\) nos pares que o enunciado deu.
  • Antes de resolver, teste a equiprojetividade. Se os dados não passarem, não existe solução — e é isso que o exercício queria que você percebesse.
  • Resolva e verifique em um ponto extra. Recalcule a velocidade de um ponto conhecido com o \(\vec\omega\) que você achou. Se bater, acabou.
As três armadilhas da Série 2

Ordem no produto vetorial. É \(\vec\omega\wedge(B-A)\), nunca \((B-A)\wedge\vec\omega\). O sinal trocado transforma a resposta certa na resposta errada com a mesma cara.

Ponto-base de outro corpo. A fórmula só liga pontos do mesmo corpo rígido. Usar o \(\vec\omega\) de uma barra num ponto do disco é o erro mais comum da lista inteira.

Achar que um par determina \(\vec\omega\) no espaço. Determina só a parte perpendicular. Se o exercício é 3D e você usou um par só, provavelmente escreveu uma resposta com um grau de liberdade escondido.

§6

Recursos

Poucos e escolhidos. A Série 2 é curta em exercícios e longa em conceito — vale mais reler o §3 do que resolver mais dez problemas.

MIT OCW 2.003SC — Engineering Dynamics

As aulas sobre rigid body kinematics montam a fórmula fundamental com outra notação.

Ouvir a mesma construção por outra voz é o melhor teste de que você entendeu.

ocw.mit.edu/courses/2-003sc

3Blue1Brown — Álgebra linear, cap. 3 e 4

Matrizes como transformações e a ideia de composição.

Serve para o §3: enxergar \(Q\) como "uma transformação que preserva forma" em vez de uma tabela de números.

3blue1brown.com/topics/linear-algebra

França & Matsumura — Mecânica Geral

Capítulo de cinemática do corpo rígido, com a notação idêntica à da sua lista.

É o livro que fala a mesma língua do enunciado — inclusive \(\wedge\) para produto vetorial.

Biblioteca / bibliografia da disciplina.

Purdue ME 274 — animações

Animações de campos de velocidade e de corpos em movimento plano.

Use agora as de corpo rígido; as de mecanismos ficam para o Módulo 3.

purdue.edu/freeform/me274
§7

Como tirar dúvidas comigo

Use os códigos: "não entendi o §3.3", "refaz o V2 com ω = 0", "aplica o P-B no L2-2.2", "me arguí sobre o §4.1".

Teste de saída — responda em voz alta, sem consultar

Se as quatro saírem redondas, o Módulo 2 está fechado:

  • Por que um corpo rígido tem seis graus de liberdade? (A resposta está na forma da fórmula, não em contar eixos.)
  • Por que \(\vec\omega\) não depende do ponto-base, mas \(\vec v_A\) depende?
  • Por que conhecer as velocidades de dois pontos não basta para achar \(\vec\omega\) no espaço — e basta no plano?
  • Como você mostraria, em duas linhas, que a projeção das velocidades de \(A\) e \(B\) sobre a reta \(AB\) é igual?

Fechado isto, a ponte para o Módulo 3 já está construída: no plano, \(\vec\omega = \omega\vec k\), e o campo \(\vec v_P = \vec v_A + \omega\,\vec k\wedge(P-A)\) tem sempre um ponto onde a velocidade se anula — aquele anel vermelho da V2. Esse ponto é o centro instantâneo de rotação, e ele transforma dezesseis exercícios de mecanismos em um procedimento só.